Mary Anne Hobbs Experimental, the final show.

A primeira vez que ouvi falar dela foi numa conversa sobre programas decentes de dubstep. Estava a explorar o género (ainda não adivinhando o vício) e queria saber onde podia ouvir as novidades com um bocadinho de orientação. Sim, procurava orientação para orientação. Na altura descreveram Mary Anne Hobbs como uma jovem inglesa, armada de uma voz exageradamente sexy, que anunciava faixas e shows num programa e passava uns mixes. Nas minhas rastas formou-se a imagem duma bimba cockney, de roupa branca e boné ao contrário qual Miss Dynamite em crise, a passar os sons que os amigos passavam e a alimentar-se do que ia ouvindo nos charts dedicados. Escusado será dizer que só ouvi o programa pela primeira vez uns bons 10 meses depois.

Passados uns dois anos, o programa da BBC Radio 1 Mary Anne Hobbs Experimental já fazia parte da rotina semanal. Afinal a jovem é uma senhora, lindissima por sinal, e uma muito bem informada workaholic, dona de uma voz inevitavelmente sexy porque o sotaque e a simpatia fazem milagres. Todas as semanas, era delicioso e ao mesmo tempo impressionante ouvi-la escavar entre qualquer coisa como 900 faixas deixadas no seu soundcloud para descobrir três ou quatro minhocas desconhecidas, que depois apresentava no programa com os mais hiperbólicos adjectivos no éter:  as palavras “dashing” e “incendiary” disparam ao minuto, num constante over-hyping que pode assustar os mais incautos com fobias ao NME. Mas entusiasmo é a chave para perceber Mary Anne Hobbs e o seu mundo: o hype não funciona aqui como forma de criar e encher espaço mas sim como genuíno artifício para mandar novos e interessantes nomes cá para fora. Em casa de dúvidas, pergunte-se a Toddla T, Skream, Benga, Vex’d, Mala, Blue Daisy, Martyn, Flying Lotus, Hudson Mohawke, Roy Orbison, a tua mãe na sua fase inspirada. Praticamente toda a gente que alguma vez fez alguma coisa no dubstep e pós-dubstep – leiam-se percursores e inovadores do género – passaram por ali, acompanhados por um adjectivo maior que a vida, quase sussurrado por uma pronuncia tão forte, quase caricatural.

Este tem sido um dos sítios a que sempre recorri para saber o que se ia passar nos próximos meses no meio- a rede de influências da senhora sempre se revelou notável, tendo em conta o espaço de tempo entre a passagem do programa e a edição de um tema, que por vezes ultrapassava o ano, ou mais. O temperamento left-field, o espaço para a inovação, o abraçar de linguagens totalmente distintas fazia daquele programa um maná óbvio para quem se interessa por estas coisas, e não havia (como não há ainda) sitio melhor para começar do que no Mary Anne Hobbs Experimental. Mas mais que uma fonte de material era, acima de tudo, o meu programa de rádio preferido: duas horas de excitação sonora que, nos seus melhores momentos, criou risinhos bem parvos nos autocarros de Lisboa e arrepios no Metro.

Após anos no ar, o programa chega agora ao fim. Mary Anne vai sair da BBC – novos projectos – e as despedidas já começaram muitos programas atrás, com intervenções e mixes muito especiais dos grandes nomes como Ramadanman, Skream, Joker e Digital Mystikz. O programa final, ainda por ouvir aqui por casa, conta com um mix muito especial de Burial e Kode9, uma despedida com as mais altas patentes do movimento, como seria de esperar. Afinal, ao contrário dos meus enganos de há uns anos, Mary Anne não seguia a trend: ela praticamente lançou o movimento, depois duma sessão história em 2006 que lançou o dubstep ao mundo – não será exagero nenhum que todos lhe devam alguma coisa, ainda que indirectamente.

E agora que chega ao fim mais outra rotina cá em casa, faz-se o luto rápido e procuram-se as alternativas. Por enquanto, e talvez com menos vontade, clicka-se no play e ouve-se o ultimo Experimental, que será com toda a certeza um triunfo de boa musica, fraternidade, diligência e dos adjectivos maiores do que a vida. A história da vida de Mary Anne Hobbs, portanto.

Obrigado e até sempre!

Clickem na rádio para ouvirem o ultimo programa, assim como o especial Sonar e a clássica sessão de 2006 que revolucionou a musica electrónica. Para dowloads de TODOS os programas, visitem o Core News.


2 responses to “Mary Anne Hobbs Experimental, the final show.

  1. Pingback: Mary Anne Hobbs de volta à Xfm « Anita vai ao mel

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